04 maio 2012

Histórias da Guiné-Bissau


Aqui vai a história de um “pequeno/grande” projecto promovido por uma “pequena/grande” ONG portuguesa, do seu “pequeno” técnico (voluntário) e dos seus dois “grandes” parceiros guineenses. A história de pessoas que não se conformam com tudo o que está a acontecer no país, que não fogem, que gritam, lutam, chateiam e…conseguem.

O Projecto BANTAL DEMOBE, que visa o reforço das capacidades produtivas agrícolas para a promoção da Segurança Alimentar e da Sustentabilidade Ambiental no Leste da Guiné Bissau, é um projecto promovido pelo ISU (PT),  em parceria com as ONGs ADIC NAFAIA e GUIARROZ (GB), com o financiamento do IPAD. Está a ser implementado em 22 tabancas nos Sectores de Contuboel (Região de Bafatá), de Gabu e Pitche (Região de Gabu).

O projecto pretende contribuir para a melhoria das condições de vida das populações nestes sectores através do reforço das suas capacidades produtivas e da comercialização dos seus produtos, salvaguardando a  sustentabilidade ambiental.

 O projecto Bantal Demobe começou a sua intervenção em Fevereiro de 2011 tendo, até agora (e apesar do limitado orçamento), alcançado os seguintes resultados:
 - 7 Bancos de Cereais construídos e em funcionamento;
- 2 formações realizadas (uma formação em Gestão Integrada Território Tabanca e outra em Gestão de Bancos de Cereais) dirigidas a cerca de 60 membros de Comités de Gestão;
- 15 hortas (comunitárias e escolares);
- 100 horas de formação para mais de 500 agricultores e mulheres horticultoras;
- 11 programas de rádio difundidos sobre Alimentação Saudável e Educação Ambiental.


Mas este artigo não quer ser um  “panegírico” sobre quão bons são os intervenientes, só pretende ser um testemunho da paixão de um técnico, da entrega dos parceiros e do seu compromisso para o bem estar e melhoria da qualidade de vida das populações, uma mensagem de esperança… não está tudo perdido na Guiné Bissau… apesar do 12 de Abril.

12 de Abril de 2012:
Mais um golpe de Estado, mais uma vez os militares quiseram deixar bem claro quem manda e declarar que as instituições democráticas são opcionais.
É um terrível dejavú para os guineenses e para este país martirizado. A vida parou 2 dias e depois, quase como se o golpe fosse rotina, tudo pareceu voltar à normalidade mas não é assim…
Sucedem-se notícias de evacuações dos estrangeiros, sanções internacionais, envio de tropas do exterior; a população foge de Bissau para o interior. As actividades económicas, e não só, estão todas paradas: as escolas fecharam, os bancos não abrem, o combustível começa a escassear, ainda que não para todos. Em Gabu falta a luz desde o dia 12 de Abril, o calor é infernal, as fronteiras fecham e abrem. Para um país que depende, quase a 90%, de produtos vindos do exterior, a situação não é nada alegre.

O Bantal Demobe tinha previsto, para o dia 18 de Abril, uma formação dirigida às mulheres das tabancas beneficiárias mas logo se percebeu que não havia condições. Os bancos continuavam encerrados, as ONGs não tinham dinheiro, não tinham como o levantar (e o técnico também não). Podia ser mais fácil deitar a toalha ao chão, desanimar, choramingar e falar de destino adverso mas não…NÃO DESISTIMOS!!!
Decidiu-se adiar uma semana só: demasiado grande é o compromisso com as comunidades, se nós próprios as abandonarmos é realmente o fim de tudo!

Todos os dias houve peregrinações ao banco até ele reabrir, no dia 23 de Abril. Já está! Dinheiro levantado, formação marcada para o dia 25 de Abril (data emblemática em que se celebra o dia da libertação em Itália e em Portugal, os dois países queridos do “nosso” técnico). Os animadores passaram os dois dias que antecederam o 25 a circular nas pistas rurais do Leste para levar “la buona novella”…não, NÃO DESISTIMOS!!!! E no dia 25 de Abril, em Nhabjon, começou a formação sobre transformação de produtos, com a participação de 27 pessoas de 19 tabancas.

NÃO, NÃO DESISTIMOS…E GANHAMOS!

Um enorme obrigado ao Enrico, colega, amigo…um outro resistente.

Eupremio Scarpa
Técnico-voluntário de longa duração na Guiné-Bissau

1 comentário:

Levy Moreira de Sousa disse...

Olá amigos, sensacional o trabalho de voces, aí na Guiné Bissau, parabens a Isu e a todos os colaboradores. Bôa Sorte a Todos.